BLUE TECH RADARTecnologias que estão transformando o mar.
O observatório que mostra, em números, onde a tecnologia da pesca precisa entrar
Santa Catarina desembarcou 197,8 mil toneladas de pescado em 2025 e tem, no Observatório do Sindipi, algo raro no setor: dado aberto, por município, espécie e petrecho. É nesse detalhe que a inovação encontra endereço.
agosto de 2026
Quem trabalha com pesca no Brasil conhece a queixa: falta dado. As estatísticas nacionais são irregulares, chegam atrasadas e raramente descem ao nível em que a decisão é tomada.
Santa Catarina resolveu isso do seu jeito. O Observatório mantido pelo Sindipi, o sindicato dos armadores e das indústrias da pesca de Itajaí e região, publica em painel aberto a produção pesqueira do estado, com dados do Lema, o laboratório de estudos marinhos aplicados da Univali, e apoio do Sebrae.
Não é um relatório anual em PDF. É um painel que se atualiza, filtra por ano, por mês e por tipo de pesca, e abre a produção por município, por espécie e por petrecho.
Esse último recorte é o que interessa a quem desenvolve tecnologia, e já chegamos nele.
O tamanho do que está em jogo
A produção desembarcada em Santa Catarina saiu de 131,5 mil toneladas em 2022 para 197,8 mil toneladas em 2025. São 50,4% de crescimento em três anos.
Em 2025, a pesca industrial respondeu por 122,3 mil toneladas e a artesanal por 75,5 mil. Duas cadeias muito diferentes convivendo no mesmo litoral, com necessidades tecnológicas que não se parecem em nada.
A concentração geográfica também chama atenção. Itajaí e Navegantes, vizinhas e separadas pelo rio, somam sozinhas quase 60% de tudo o que foi desembarcado no estado entre 2022 e 2025.
Para quem vende equipamento, isso significa que o mercado inteiro cabe em um raio de poucos quilômetros.
A tecnologia está no petrecho
A tabela de petrechos é a mais reveladora de todas, e é a que quase ninguém olha.
Petrecho é o equipamento de captura. Cerco traineira, redes de emalhe, arrasto, espinhel, vara e isca-viva. Cada linha daquela tabela é uma tecnologia diferente, com um problema técnico diferente e um mercado fornecedor próprio.
O cerco traineira, responsável por 259,5 mil toneladas no período, é o método da sardinha. Depende de detecção acústica, de sonar de varredura, de manejo de rede e de refrigeração rápida a bordo, porque sardinha perde valor em horas.
As redes de emalhe, com 174,5 mil toneladas, são o campo onde mais se discute seletividade e captura incidental. É aí que entram dispositivos de dissuasão acústica, marcação de rede, materiais que se degradam quando a rede é perdida e sensores que informam quando ela está cheia.
As modalidades de arrasto, somadas, passam de 100 mil toneladas. É a pescaria que mais consome combustível por quilo capturado e a que mais se beneficia de otimização de porta, de geometria de rede e de grelhas seletoras.
Nenhuma dessas soluções é ficção científica. Todas existem e estão instaladas em frotas de outros países. O que falta é encontro entre quem fornece e quem opera.
Por que um observatório muda o jogo
Existe uma diferença prática entre saber que a pesca é importante e saber quantas toneladas de camarão-sete-barbas saem por ano, com que petrecho e de qual município.
A primeira informação rende discurso. A segunda rende decisão de investimento.
Um fabricante de equipamento de bordo consegue dimensionar mercado. Um estaleiro consegue projetar embarcação para a pescaria certa. Um desenvolvedor de sistema de rastreabilidade sabe quantos barcos precisa atender. Um órgão público consegue discutir gestão com número em vez de impressão.
E o setor consegue defender a si mesmo com dado próprio quando a discussão sobre cotas e períodos de defeso chega.
Vale registrar também quem fez. Não foi encomendado a uma consultoria de fora. Foi construído pelo próprio sindicato do setor, com a universidade da região e apoio institucional. É um modelo que outros estados poderiam copiar amanhã.
O que o painel ainda não mostra
Nenhum observatório é completo, e apontar o que falta é parte de levar o instrumento a sério.
O painel trabalha com volume desembarcado. Não traz valor, então não dá para ver se a receita acompanhou o crescimento em tonelada. Também não mostra esforço de pesca, isto é, quantos barcos e quantos dias no mar foram necessários para chegar naquele volume.
Essa é justamente a razão entre produção e esforço que indica se um estoque está saudável ou se a frota está apenas trabalhando mais para pescar o mesmo.
Nada disso tira o mérito do que já existe. O Observatório mantém outros painéis, sobre setor pesqueiro, comércio exterior por município e por estado, mercado de trabalho e panorama econômico, e a combinação deles cobre parte dessas lacunas.
Pesca é tecnologia
Existe uma imagem congelada da pesca como atividade artesanal, quase folclórica, imune à inovação. A tabela de petrechos desmente isso em uma olhada.
Um barco de cerco moderno é uma plataforma de detecção, com sonar, ecobatímetro, sensor de rede, posicionamento, comunicação por satélite, geração de energia e cadeia de frio a bordo. É mais parecido com um navio de pesquisa do que com o desenho que a maioria das pessoas tem na cabeça.
Pesca e aquicultura estão entre os eixos do Blue Nautical Hub Brasil por esse motivo. Eletrônica embarcada, refrigeração, propulsão, materiais de rede, segurança da tripulação, rastreabilidade e certificação são os mesmos temas que aparecem nos outros eixos, aplicados a uma frota que trabalha o ano inteiro.
E o Hub acontece em Santa Catarina, a poucos quilômetros de Itajaí e Navegantes, que é onde essa frota está.
Dado aberto é infraestrutura
Há uma lição mais ampla nesse observatório, e ela vale para toda a Economia do Mar.
Tecnologia não entra em um setor só porque é boa. Ela entra quando alguém consegue calcular retorno. E não se calcula retorno sem dado.
Ao publicar quanto se pesca, onde, de quê e com qual equipamento, o Sindipi não está apenas prestando contas. Está construindo a infraestrutura de informação que permite a um fornecedor decidir investir na pesca catarinense.
É barato, é pouco glamouroso e talvez seja uma das coisas mais úteis que uma entidade setorial pode fazer.
Blue Tech | A pesca catarinense em números
Produção desembarcada em 2025: 197.841,69 toneladas, sendo 122.345,90 de pesca industrial e 75.495,79 de pesca artesanal. Evolução: 131.522 toneladas em 2022, 146.100 em 2023, 193.700 em 2024 e 197.842 em 2025, com alta de 50,4% no período. Principais municípios no acumulado de 2022 a 2025: Itajaí com 277.774 toneladas e Navegantes com 114.575. Principal espécie: sardinha-verdadeira, com 196.533 toneladas. Principal petrecho: cerco traineira, com 259.503 toneladas. Fonte: Observatório Sindipi, com dados do Lema/Univali atualizados em 16 de agosto de 2026 e apoio do Sebrae.
Matéria Blue Nautical Hub Brasil, a partir dos painéis públicos do Observatório Sindipi. Foto: Mundo Mar.
Produção pesqueira de Santa Catarina, por ano
| Ano | Toneladas |
|---|---|
| 2022 | 131.522 |
| 2023 | 146.100 |
| 2024 | 193.700 |
| 2025 | 197.842 |
Crescimento de 50,4% entre 2022 e 2025.
2025 por tipo de pesca
| Tipo | Toneladas |
|---|---|
| Pesca industrial | 122.345,90 |
| Pesca artesanal | 75.495,79 |
| Total | 197.841,69 |
Municípios que mais desembarcam
| Município | Toneladas |
|---|---|
| Itajaí | 277.774 |
| Navegantes | 114.575 |
| Laguna | 58.682 |
| Florianópolis | 40.313 |
| Biguaçu | 16.715 |
| Passo de Torres | 15.844 |
| Bombinhas | 14.515 |
| Governador Celso Ramos | 12.783 |
| Balneário Barra do Sul | 12.306 |
| Balneário Camboriú | 11.452 |
| Penha | 11.379 |
Soma do período de 2022 a 2025.
Espécies mais capturadas
| Espécie | Toneladas |
|---|---|
| Sardinha-verdadeira | 196.533 |
| Corvina | 80.937 |
| Bonito-listrado | 69.042 |
| Tainha | 36.261 |
| Camarão-sete-barbas | 29.553 |
| Enchova | 24.768 |
| Sardinha-lage | 20.433 |
| Siri | 16.699 |
| Palombeta | 12.293 |
| Boca-torta | 9.122 |
Soma do período de 2022 a 2025.
Produção por petrecho de pesca
| Petrecho | Toneladas |
|---|---|
| Cerco traineira | 259.503 |
| Redes de emalhe | 174.540 |
| Vara e isca-viva | 52.531 |
| Arrasto duplo | 50.253 |
| Arrasto de parelha | 36.700 |
| Linhas diversas | 24.478 |
| Aviãozinho | 12.485 |
| Espinhel de superfície | 11.696 |
| Arrasto de praia | 8.052 |
| Emalhe anilhado | 7.443 |
| Arrasto simples | 6.802 |
Soma do período de 2022 a 2025. Fonte de todas as tabelas: Observatório Sindipi, com dados do Lema/Univali atualizados em 16 de agosto de 2026.