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Da lanterna de cultivo à lata: a maricultura catarinense descobre a indústria
A primeira certificação brasileira para conservas de ostras e mexilhões, concedida em Florianópolis, resolve o gargalo mais antigo da cadeia: um produto vivo, perecível e preso ao raio de algumas horas de estrada.
agosto de 2026
Quando se fala em inovação na Economia do Mar, a conversa costuma correr para sensores, propulsão elétrica, drones ou inteligência artificial. Raramente para uma lata.
Mas foi uma lata que acabou de mudar o horizonte comercial de uma das cadeias mais tradicionais de Santa Catarina. Florianópolis certificou a primeira indústria brasileira autorizada a produzir conservas de ostras e mexilhões, e isso tem consequências que vão muito além da prateleira do supermercado.
O gargalo nunca foi produzir
A maricultura catarinense sabe cultivar. O que ela nunca conseguiu resolver foi o tempo.
Ostra e mexilhão são vendidos vivos. O produto sai da água e começa a correr contra o relógio. Precisa de cadeia de frio, de transporte rápido, de um comprador próximo e de um consumidor disposto a manipular um animal vivo dentro da concha.
Na prática, isso confinou a produção a um raio de poucas horas de estrada e a um calendário de alta e baixa temporada. Um produtor de Palhoça ou de Governador Celso Ramos pode ser excelente no cultivo e ainda assim depender de restaurantes que ficam a menos de trezentos quilômetros dele.
A esterilização comercial quebra exatamente essa trava. O molusco deixa de ser um produto vivo e passa a ser um alimento estável, com validade longa, que viaja sem refrigeração e atravessa fronteira.
Tecnologia de processo também é tecnologia
A certificação veio do Serviço de Inspeção Municipal de Florianópolis, com apoio técnico do professor Giustino Tribuzzi, da Universidade Federal de Santa Catarina. A empresa habilitada foi a Amuse Bouche SC, no bairro Saco Grande.
Vale insistir num ponto: o que está em jogo aqui é engenharia de alimentos. Definir binômio de tempo e temperatura, validar a penetração de calor no centro da embalagem, garantir que o processo elimine o risco microbiológico sem transformar a ostra em borracha, comprovar tudo isso diante de uma autoridade sanitária.
Não é diferente, em natureza, do trabalho de validar um material compósito ou um sistema de controle embarcado. É pesquisa aplicada resolvendo um problema industrial concreto.
E ela aconteceu na junção de três atores que o setor costuma manter separados: uma empresa privada, uma universidade pública e um órgão municipal de inspeção.
Os números que explicam a importância
Para entender o tamanho do que está em jogo, é preciso olhar a escala da maricultura catarinense.
Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, divulgada em setembro de 2025, a malacocultura brasileira alcançou 9,56 mil toneladas em 2024, com crescimento de 21,7% sobre o ano anterior e valor de produção de R$ 119 milhões.
Santa Catarina responde sozinha por 91% desse total: 8,7 mil toneladas de ostras, vieiras e mexilhões, equivalentes a R$ 102 milhões.
Florianópolis lidera a produção de ostras do país, com cerca de R$ 37 milhões, e também é a maior produtora nacional de sementes de moluscos, o insumo do qual depende todo o restante da cadeia. Palhoça, Bombinhas, Penha, Governador Celso Ramos, São José e São Francisco do Sul completam o grupo dos principais municípios produtores.
São centenas de famílias maricultoras vivendo dessa atividade ao longo do litoral. Um setor com essa densidade produtiva e praticamente sem indústria de transformação é um setor operando abaixo do seu potencial.
O que uma conserva faz com o valor agregado
Existe uma diferença econômica grande entre vender matéria-prima e vender produto.
Ostra viva é commodity de curtíssimo prazo, com preço pressionado na alta temporada, quando todo mundo colhe ao mesmo tempo. Conserva é outra categoria: tem marca, tem rótulo, tem história de origem, tem prateleira e tem preço descolado do dia da colheita.
Isso também resolve o problema do excedente. O produtor deixa de ser refém do pico de produção, porque o que não for vendido fresco pode ser processado.
E abre a porta da exportação. Um alimento estável à temperatura ambiente pode ser embarcado em contêiner seco para qualquer mercado do mundo, sem a logística cara e frágil do produto vivo.
A peça que faltava na cadeia
O setor náutico e a Economia do Mar já discutem há anos a necessidade de agregar valor à produção brasileira em vez de exportar volume bruto.
A maricultura é um caso quase didático disso. O Brasil tem um dos melhores litorais do mundo para cultivo de moluscos, tem tecnologia de produção consolidada, tem liderança absoluta concentrada em um único estado e, até aqui, quase nenhuma indústria para transformar isso em produto embalado.
A certificação de Florianópolis abre um precedente regulatório. Ela mostra o caminho técnico e documental para quem quiser fazer o mesmo, e cria referência para outros municípios e para outros produtos do mar.
Vale lembrar que Florianópolis é Cidade Criativa da Gastronomia pela UNESCO, um reconhecimento que se apoia justamente na tradição pesqueira e na maricultura. Um produto industrializado com identidade de origem é exatamente o tipo de ativo que dá lastro comercial a esse título.
Inovação também é destravar uma cadeia inteira
O Blue Tech Radar acompanha tecnologias que estão transformando a Economia do Mar. Nem sempre elas têm a aparência de tecnologia.
Um drone autônomo impressiona mais do que um autoclave. Mas quando um processo industrial permite que centenas de famílias produtoras alcancem mercados que antes eram inacessíveis, o efeito econômico pode ser maior do que o de muito equipamento sofisticado.
Pesca e aquicultura estão entre os eixos do Blue Nautical Hub Brasil justamente por isso. Equipamento de cultivo, processamento, embalagem, cadeia de frio, rastreabilidade e certificação fazem parte do mesmo ecossistema que discute propulsão, eletrônica e novos materiais.
A maricultura catarinense já provou que sabe produzir. Agora começa a provar que também sabe industrializar.
Blue Tech | A maricultura de Santa Catarina em números
Produção brasileira de moluscos em 2024: 9,56 mil toneladas, alta de 21,7% sobre 2023, com valor de R$ 119 milhões. Participação de Santa Catarina: 91%, com 8,7 mil toneladas e R$ 102 milhões. Liderança em ostras: Florianópolis, com cerca de R$ 37 milhões, também primeira colocada na produção de sementes. Demais municípios de destaque: Palhoça, Bombinhas, Penha, Governador Celso Ramos, São José e São Francisco do Sul. Fonte: Pesquisa da Pecuária Municipal, IBGE, divulgada em setembro de 2025.
Matéria Blue Nautical Hub Brasil, com informações da Prefeitura Municipal de Florianópolis e dados do IBGE e da Epagri. As latas que aparecem na imagem de abertura são material de divulgação da Amuse Bouche SC e da Prefeitura de Florianópolis. O cenário ao fundo é uma montagem feita com inteligência artificial.